quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Romantismo e questões de Estilo - apontamentos aula 20/09

Prof. Cavalcanti
Romantismo e questões de Estilo

De início, temos a questão do que é arte.

A pró-vocação em sala pôs em fala (latim, voce, donde surge vocal e vocação) - digo que a pró-vocação em sala pôs em fala a definição de arte segundo Romantismo de Jena, em texto de Fernando Pessoa que não assinala sua fonte.

Dizer que a arte é o “pensar o sentimento” traz a lume a filosofia de Schlegel (e com ele quase sempre o amigo Novalis). Para ambos, a arte surge não do sentimento, mas do pensar que incide sobre o sentimento. Dessa forma, acontece uma RE-flexão, isto é, o pensamento volta para o sentimento, e nesse agir-pensar se dá a mencionada RE-flexão (quando o pensamento posterior retorna ao sentimento anterior, como um desenho de semi-parábola). A semi-parábola é representação imagística da obra-de-arte, e ao mesmo tempo sua limitação (ela se limita a ser essa RE-flexão do pensamento regressando ao sentimento).

Tal compreensão dos românticos de Jena inevitavelmente os conduziu a perceber que a reflexão na verdade era uma auto-reflexão: o pensamento já ocorrera, enquanto tal, e o regresso ao sentimento consistia no pensar aquele pensar: repensar, ou melhor, refletir, já que esse repensar se projetava como retorno (re-flexão do pensamento regressando ao sentimento).

É difícil honestamente conduzir nossa inteligência por esses caminhos. O Romantismo de Jena é o posto de pensamento mais avançado do Ocidente, recusando muitas vezes o racionalismo. Significar esse pensar jenense é transformá-lo em a-racional, mas perder o sentido que ele quer transmitir é tatear o i-racional.

Na abordagem do texto literário referente à aula, um poema de Bocage, as imagens convidaram muitos de nós a identificar “características” do Romantismo. Entretanto, de que Romantismo estamos falando? É preciso sempre lembrar a amplitude do horizonte conceitual, isto é, sempre perguntar qual o sentido de determinado conceito, na busca da maior quantidade de respostas possíveis, dadas pelos teóricos e críticos, pensadores e filósofos.

No caso do Romantismo, temos verdadeiro imbróglio irresoluto até hoje. Romantismo para os românticos era uma coisa, para os pré-românticos (os do Classicismo de Weimar) é outra. Por sua vez, o que se diz “moderno” hoje, nossos contemporâneos, fundaram duas visões irreconciliáveis: a crítica sociológica considera que o romântico seria uma escola literária específica do início do séc. XIX, morta com o Realismo, em cujo cerne resplandecia o egocentrismo, ou sentimentalismo; para os teóricos e estetas, romântico era uma revolução paradigmática desde a Revolução Francesa e suas bases preparatórias, até o ponto em que vai a compreensão de Modernidade (para os adeptos da Pós-Modernidade até 1960 ou 1990).

Então convém se apropriar, enquanto crítico, da noção que mais favoreça sua observação. No caso, se estamos admitindo POR HIPÓTESE que haja um quê romântico em Bocage, precisamos nos servir da noção que os próprios românticos tinham de romantismo, que não corresponde ao que nós estabelecemos atualmente como romântico.

A definição do românticos para Romantismo era a expressão do gênio, isto é, aquele que difere do convencional, do ordinário, do senso comum e denuncia o sistema como problema, amarras contra a liberdade de toda forma de ser (pois a forma de ele ser não se “enquadra” no sistema). Tal é a ironia romântica, ou seja, a força-de-linguagem capaz de superar o uso medíocre da linguagem, como exercício da língua e produção de discursos sobre o óbvio.

Então, a pergunta que se lança é se Bocage apresenta esse fundamento.

No entanto, ainda há uma prática de crítica, até costumeira, que procura assinalar aspectos dos estilos literários evidentes em outras épocas e experimentar provar sua existência, seja como prenúncio, seja como permanência subterrânea de determinado estilo.

Essa maneira de proceder é legítima, mas é preciso tomar primeiro uma certeira definição do que seja o estilo que se porá em questão, para que não haja problemas teóricos.

E o Romantismo é o primeiro a fornecer esse perigo. Se tomarmos uma definição errada ou incompleta, ou mesmo inautêntica, terminaremos por fracassar em nossa empresa: ou recusaremos ou sustentaremos erradamente a existência de marcas do estilo porque definimos mal o estilo. Por exemplo: se definirmos erradamente o Romantismo, qualquer identificação desse estilo na obra é uma quimera teórica ou ilusão bem intencionada. É como definir laranjas como verdura, e sair procurando característica de verdura em outras frutas. Se definirmos erradamente o estilo, estaremos procurando outras coisas, que não o estilo autêntico, verdadeiro em si mesmo.

Com relação a esse procedimento - encontrar um estilo atribuído a outra época - no poema do Bocage, claro está que podemos aproveitar características desse estilo pretendido, mas nunca poderemos defini-lo a partir de um recorte temporal, pois estará excluindo a possibilidade de nosso trabalho. Podemos constatá-lo inclusive a partir de como ele se deu numa época específica, mas nossa definição terá de recorrer a uma perspectiva ontológica, isto é, essencialista.

Esse é o desafio nesse engodo em que estamos; é a saída do labirinto. Temos que definir o Romantismo prescindindo dos marcos temporais, mas não podemos recair na definição de outro estilo. E no caso específico do Romantismo, ainda temos que redobrar a atenção para não recair nas outras definições do próprio Romantismo, mas que o encaram de maneira completamente divergente ao que queremos significar.

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